O mundo aprendeu a premiar quem produz mais. A próxima disputa será entre quem consegue armazenar, controlar o fluxo e entregar quando o mercado mais precisa. E o Brasil ainda tem uma conta a resolver.O Brasil tornou-se uma potência agrícola global. Bate recordes de produção, domina tecnologias adaptadas aos trópicos e abastece mercados estratégicos em todos os continentes. Mas existe uma contradição incômoda nessa trajetória: produzimos em escala mundial e, ainda assim, convivemos com limitações estruturais para armazenar, movimentar e comercializar essa riqueza com eficiência.Para quem acompanha o agronegócio global, a questão é direta: de que adianta colher uma safra histórica se não temos capacidade suficiente para preservar o produto, escolher o momento da venda e garantir sua entrega?Produzir é poder. Mas armazenar é ganhar tempo. E, em mercados sujeitos a choques climáticos, conflitos geopolíticos e restrições comerciais, tempo pode valer mais do que produtividade.A infraestrutura de armazenagem, a inteligência logística e a distribuição regional deixaram de ser temas periféricos da operação. Tornaram-se instrumentos de gestão de risco, proteção de margens e soberania alimentar. É nesse contexto que o estoque estratégico volta ao centro das decisões para o ciclo 2026/2027.
O governo se antecipa, mas o mercado precisa entender o recado
As medidas recentes do governo brasileiro sinalizam uma mudança relevante na abordagem da segurança alimentar. Em agosto, a Medida Provisória nº 1.384 mobilizou mais de R$ 925 milhões em crédito extraordinário, direcionados à segurança alimentar e à mitigação de potenciais impactos climáticos associados ao El Niño. Em setembro, novas iniciativas buscaram transformar essa orientação em capacidade operacional:
Arroz: previsão de até R$ 500 milhões para aquisição de arroz longo fino em casca da safra 2025/2026, por meio de leilões da Conab, com o objetivo de recompor estoques públicos.
Milho: ampliação do Programa de Venda em Balcão, de 50 mil até 260 mil toneladas em 2026, fortalecendo o acesso ao insumo por pequenos criadores, produtores de leite e agricultores familiares.
O ponto mais importante não está apenas nos valores anunciados, mas na lógica por trás das medidas: antecipar riscos antes que eles se transformem em crises de abastecimento e escalada de preços.Há, porém, uma provocação necessária. Estoques públicos podem funcionar como amortecedores, mas não substituem uma estratégia estrutural de armazenagem, infraestrutura e inteligência de mercado. O desafio brasileiro é transformar iniciativas pontuais em capacidade permanente de resposta.
Do just-in-time ao just-in-case: a eficiência mudou de endereço
Durante décadas, o mundo corporativo perseguiu estoques mínimos, capital imobilizado reduzido e cadeias de suprimento cada vez mais enxutas. O modelo just-in-time tornou-se sinônimo de eficiência. O problema é que eficiência sem redundância pode se transformar em vulnerabilidade.A nova realidade exige incorporar o just-in-case: manter capacidade de resposta para cenários que não obedecem ao planejamento original.Três forças tornam essa mudança inevitável:
Clima e logística sob ataque simultâneo: secas podem comprometer hidrovias, enquanto chuvas excessivas interrompem corredores rodoviários e prejudicam a qualidade dos grãos. O risco não está apenas em produzir menos, mas também em não conseguir transportar o que foi produzido.
Geopolítica e protecionismo alimentar: países importadores ampliam sua preocupação com a disponibilidade física de alimentos e insumos. Em um ambiente de restrições comerciais e conflitos, depender exclusivamente de fluxos internacionais contínuos deixou de ser uma aposta confortável.
Margens, originação e poder de negociação: tradings, esmagadoras, cooperativas e indústrias de proteína animal precisam administrar disponibilidade, fretes, bases regionais e sazonalidade. Quem dispõe de armazenagem e flexibilidade comercial pode escolher melhor quando comprar, vender e entregar. Quem não dispõe fica mais exposto às condições impostas pelo mercado.
Nesse cenário, o déficit brasileiro de capacidade estática de armazenagem em relação à produção anual não representa apenas um gargalo logístico. Representa perda potencial de valor, pressão sobre a comercialização na colheita e menor flexibilidade para competir globalmente.
Segurança alimentar não se resolve apenas dentro da porteira
Uma cadeia agroalimentar não demonstra resiliência quando bate recordes em condições favoráveis. Demonstra resiliência quando continua abastecendo mercados sob estresse climático, restrições logísticas e volatilidade de preços.Ter produto disponível na quantidade, no lugar e no momento certos deixou de ser uma atribuição exclusivamente operacional. É uma decisão de estratégia, governança e alocação de capital.Para o Brasil, a oportunidade é clara: conectar expansão produtiva a investimentos em armazenagem, ferrovias, hidrovias, terminais, integração multimodal e sistemas de informação capazes de antecipar desequilíbrios regionais.O próximo salto de competitividade do agronegócio brasileiro talvez não venha apenas de mais tecnologia no campo ou de mais toneladas por hectare. Pode vir da capacidade de preservar o valor de cada tonelada produzida e de decidir quando e para onde ela deve seguir.A pergunta que deveria estar na mesa dos conselhos de administração não é somente quantas sacas colheremos na próxima safra.É outra, bem mais estratégica: se o próximo choque global acontecer amanhã, teremos estoque, logística e inteligência suficientes para proteger nossas margens e continuar abastecendo o mundo?Porque, no novo tabuleiro do agronegócio global, produzir mais continuará sendo importante. Mas saber guardar, movimentar e entregar poderá separar quem simplesmente participa do mercado de quem efetivamente exerce poder sobre ele.O agro não para!Por Marco Ripoli, Ph.D em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor associado da PH Advisory Group.